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28.2.08

O grande espetáculo

Ontem veio todo mundo aqui querendo saber sobre o co-piloto do helicóptero que caiu. Está bem, está bem, não vai morrer etc. Entre eles, veio o SBT, com um rapaz encarregado de participar da ressurreição do - valei-me! - Aqui Agora. Lembra, aquele com o Gil Gomes? Poisé, coitado. A recomendação da chefia dele era fazer uma matéria dinâmica, no pior sentido do termo.

Então chega o rapaz, todo espaventoso. Quer falar com o paciente. Não pode. Tenta ser charmoso, achando que vai convencer o assessorzinho de merda do hospital na roça. Não consegue. Conforma-se com o médico. Mas ele não quer uma sonora normal, com o médico parado falando, não. Ele quer, muito dramaticamente, invadir a emergência com a câmera e encontrar o médico lá dentro, de preferência todo sujo de sangue. "É uma proposta diferente", ele explica. Eu rio. O médico olha, meio incrédulo. Por fim, diz que não dá, vai atrapalhar a entrada e saída de pacientes. Emergência, não dá.

Ele tenta de novo: "Então eu fico aqui fora, o senhor abre a porta da emergência e vem falar comigo". Olho pro lado. O médico recusa de novo. É chamado lá dentro. Tem que fazer a transferência do co-piloto. Fico sozinho com o artista. Que merda, hein? Ele discorda. "É uma proposta diferente", responde. Acredita mesmo no produto.

Passa muito tempo. Afinal, o médico sai de novo e, por falta de tempo para muito teatro, escandaloman aceita uma sonora convencional. Mas o câmera deu show: fechava no médico, abria, subia, descia, girava, filmava o céu, o chão, a vida, as estrelas. Fiquei imaginando como sairia aquilo. Ficaria tonto se assistisse. É o máximo do grotesco, do espetáculo, do sensacional (no mau sentido).

Aaaaaaaaaquiiiiiiii Aaaaaagooooooooooooraaaaaaaaaaaaa

19.11.07

Qual a função de um blogue?

Comecei a me perguntar a respeito disso algum tempo atrás, quando recomecei a ler blogues e querer reativar este aqui. Talvez o comentário de jH ao texto anterior tenha apressado o processo. Mas o fato é que Hunter Thompson Is Back From The Grave.

Começo com uma carta encontrada no imprensa marrom, bom blogue jornalístico, enviada ao informativo oficial da oposição de centro-direita por Jon Lee Anderson, biógrafo de Che Guevara, a respeito de uma matéria publicada pela revista algum tempo atrás e assinada pelo editor Diogo Schelp.

Antes da carta, a ressalva: eu não sou devoto de Che Guevara.

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“Caro Diogo,

Fiquei intrigado quando você não me procurou após eu responder seu email. Aí me passaram sua reportagem em Veja, que foi a mais parcial análise de uma figura política contemporânea que li em muito tempo. Foi justamente este tipo de reportagem hiper editorializada, ou uma hagiografia ou – como é o seu caso – uma demonização, que me fizeram escrever a biografia de Che.

Tentei pôr pele e osso na figura super-mitificada de Che para compreender que tipo de pessoa ele foi. O que você escreveu foi um texto opinativo camuflado de jornalismo imparcial, coisa que evidentemente não é.

Jornalismo honesto, pelos meus critérios, envolve fontes variadas e perspectivas múltiplas, uma tentativa de compreender a pessoa sobre quem se escreve no contexto em que viveu com o objetivo de educar seus leitores com ao menos um esforço de objetividade.

O que você fez com Che é o equivalente a escrever sobre George W. Bush utilizando apenas o que lhe disseram Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad para sustentar seu ponto de vista.

No fim das contas, estou feliz que você não tenha me entrevistado. Eu teria falado em boa fé imaginando, equivocadamente, que você se tratava de um jornalista sério, um companheiro de profissão honesto. Ao presumir isto, eu estaria errado. Esteja à vontade para publicar esta carta em Veja, se for seu desejo.

Cordialmente,

Jon Lee Anderson.”


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Até aqui, nada de novo pra quem está acostumado às peripécias da revista. Maniqueísmo, parcialidade e alarmismo são fato comum. Talvez o próprio Curso Abril ensine isso àqueles que anseiam por uma vaga na publicação.

O problema foi quando o signatário da reportagem resolveu, do alto de sua arrogância, responder a Anderson. Depois de cada parágafo, um pequeno comentário.

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“Caro Anderson,

Eu fiquei me perguntando, depois de lhe enviar um email pedindo (educadamente) uma entrevista, por que nunca recebi uma resposta sua. Agora sei que a mensagem deve ter-se perdido devido a algum programa antispam ou por qualquer outra questão tecnológica. Também não recebi sua ‘carta’ – talvez pelo mesmo problema. Tudo isso não tem a menor importância agora porque você resolveu o assunto valendo-se dos meios mais baixos – um email circular. O que lhe fez pensar que tinha o direito de tornar pública nossa correspondência, incluindo a mensagem em que eu (educadamente) pedia uma entrevista? Isso, caro Anderson, é antiético. Vindo de alguém que se diz um jornalista, é surpreendente.


Esse é o problema de quem não sai de uma redação. É fato profundamente conhecido que repórteres da veja não assinam matérias; quem assina é o editor, usando (e abusando da) apuração dos outros. Caso Schelp tivesse realmente que correr atrás de uma entrevista, usaria o telefone. Se eu fosse editor-chefe e algum repórter me chegasse com essa desculpa, teria que caçar outro emprego no dia seguinte.

Não adianta nada ter educação, Schelp. Seria melhor ter iniciativa.

Você pode não gostar da reportagem que escrevi; ela pode ser boa ou ruim, bem-escrita ou não, editorializada ou não – mas não foi feita com os métodos antiéticos que você usa. Eu respeito a relação entre jornalistas e fontes. Você não. E mais: parece-me agora que você é daquele tipo de jornalista que tem medo de fazer uma ligação telefônica (assim são os maus jornalistas), já que tem meu cartão de visita e conhece meu número de telefone. Se você tinha algo a dizer sobre a reportagem — e já que sua mensagem não estava chegando a seu destino — poderia ter me ligado.

Ha! Ha! Ha!

A incoerência da veja se revela mesmo no discurso de seus editores. Então agora é a fonte que tem que correr atrás do jornalista (fazendo uma ligação internacional, que seja) se quiser reclamar de uma reportagem -- que foi malfeita (ignorando-se aí toda a editorialização inerente à veja) porque, de início, o jornalista esqueceu da sua OBRIGAÇÃO de se virar (incluindo dar muitos, muitos telefonemas) se quiser fazer uma apuração razoavelmente decente.

O Universo orbita em torno de veja.

Eu não sei que tipo de imagem de si mesmo você quer criar (ou proteger) negando os fatos que o seu próprio livro mostra, mas está claro agora que é a de alguém sem ética. Você pode ficar certo de que não aparecerá mais nas páginas desta revista.

Sem mais,
Diogo Schelp”


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O mais engraçado é quando os vejeiros resolvem falar de ética. É pena que essa seja considerada a publicação "informativa" mais importante do país.

Estamos fodidos.

Leia também os comentários do imprensa marrom.

15.5.07

Vamos moralizar essa bagaça

Li no noticiário do UOL de hoje que clodô, a síntese da formação política brasileira, teve um ataque qualquer e foi internado. Como não poderia deixar de ser, foi lembrado o piti anterior do deputado pra cima de sua excelentíssima colega Cida Diogo (PT-RJ) e o furor justiceiro da rapaziada da Câmara:

"O líder do PT na Câmara, deputado Luiz Sérgio (RJ), protocolou representação contra Clodovil na Câmara pelas ofensas do deputado contra as mulheres. Sérgio afirma, no texto, que Clodovil quebrou o decoro parlamentar ao usar palavras de baixo calão contra Cida Diogo e as mulheres em geral.

"Se a representação for aceita, o deputado pode sofrer punições que variam desde advertência verbal em plenário até a cassação do mandato."


Não duvido que clodô leve um passaralho. Nessas horas a gente lembra de todos os outros colegas envolvidos em tantos outros escândalos (com relação a desvios de verba, é bom dizer) e que levaram, no máximo, a tal advertência verbal, e tudo faz sentido.

É que eles sempre foram muito bem educados.

24.4.07

Aforismos, vol. I

Estava lendo anotações antigas perdidas no meio do lixo e encontrei algumas frases que escrevi não sei por quê nem sob que influência, mas em todo caso poderiam estar encadernadas num livro qualquer de muita sabedoria, como esse aqui ou esse.

A felicidade é uma uva passa, fétida e morta.

Observar, observar, observar.

Estar saudável é uma hesitação antes de ficar doente.

A alegria é uma desculpa para a alienação.

Quem te dá tudo hoje pode te tirar tudo amanhã.

11.3.07

Os Mendigos de Ford - por Onofre Gusmão

Texto publicado em seu blogue, Onofre Gusmão Comenta, em 16 de fevereiro de 2004, quando o colunista desfrutava de enorme sucesso internético.

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Desde minha conversa com Clara, a criada (publicada aqui algumas semanas atrás), resolvi preencher minhas horas livres entre uma partida de bridge e outra com um hobby mais bem-visto e também condizente com pessoas da minha estirpe: a sociologia. Tenho trazido alguns exemplares de pobres (bem contidos, é verdade) para estudo -- cheguei mesmo a erguer um cercadinho no quintal para mantê-los bem presos enquanto os submeto à metodologia científica. Pude notar, nesse breve período, uma tendência bastante interessante entre os pedintes: o fordismo.

Pelo que posso me lembrar da época em que ainda passava por lugares habitados por mendigos, era de praxe entre eles o implorar verbal e físico. Jogavam-se no chão, contorcendo-se, com as bocas desdentadas implorando um pão velho ou alguns centavos para a cachaça. O transeunte, se excessivamente enojado (já que não vejo como alguém possa sentir-se de outra forma), podia repelir o monstro à altura.

No entanto, o tempo passa e a modernidade alcança todos, mesmo os mendigos. Agora, para alcançar mais resultado em menos tempo, os pedintes usam papeizinhos para facilitar o serviço. Fazem várias cópias (chéroques vagabundas) de uma frase padrão, normalmente lamentando sua situação de penúria e ressaltando que, se tivessem a oportunidade, trabalhariam (sic), e entregam-nos à população. Segundo me contou um dos espécimes estudados, a tática normalmente é abordar ônibus ou bares e entregar os papeizinhos a todos que lá estiverem sem dar-lhes tempo de reagir. "O ideal é pagar eles no susto", resumiu o espécime. Espera-se, então, algum tempo até que a maioria das vítimas recobre-se do espanto e termine a leitura para se "passar a sacola", como se diz no jargão da espécie.

Segundo minhas análises estatísticas, os mendigos conseguem pedir para 40% mais pessoas num período de tempo 65% menor, potencializando seus ganhos em até 600%. Tanta prosperidade já começa a levar os pedintes a se organizarem em cooperativas -- o que provoca algum ressentimento entre os mais ortodoxos, que preferem manter-se autônomos. Estes, no entanto, podem ser facilmente pacificados com algumas esmolas dadas pelos mendigos mais abastados.

O próximo passo, segundo o líder de uma cooperativa que também esteve submetido a estudo, é solicitar, junto ao Ministério do Trabalho, que a mendicância seja oficialmente reconhecida como atividade profissional. Com as cabeças pensantes (sic) que atualmente habitam o Governo, não duvido que isso aconteça muito em breve. Afinal, o espetáculo do crescimento se faz com empregos.

9.3.07

Estou ficando velho

Estava lendo os jornais a respeito da inspeção que W. Dubya veio fazer em nossa tropical e exótica nação e de repente me percebi resmungando a respeito de todo o circo que os valentes opositores armaram por causa de sua nefasta (sic Lula) presença. Faixa estendida no congresso por corajosos parlamentares de esquerda, pedras, sacos de tinta e quetais atirados por estudantes engajados, fazendas e estradas invadidos por combativos militantes sem-terra, and so on. Bonecos queimados em Fortaleza. Palavras de ordem gritadas em Recife. Muros pichados em Porto Alegre. Manifestação em Buenos Aires.

Enquanto isso, na mesma nação tropical e exótica, o tráfico comanda, as meninas se prostituem, as crianças morrem de fome, a água chega a metade da população (se não menos), os hospitais desmoronam, as escolas despreparam pessoas a cada ano, a pouca cobertura vegetal nativa que sobrou é dia a dia substituída por pastos e eucaliptos, os pobres são mantidos pobres por questões eleitorais.

Menos hipocrisia, minha gente.

12.6.06

Mais uma vez

Este blogue, de acordo com meus cálculos, é o oitavo que inicio desde que aderi à moda, em meados de 2001. Cinco anos, portanto, sendo mais ou menos bem-sucedido. Dando uma olhada nos textos antigos que havia escrito, encontrei o que reproduzo abaixo, redigido em novembro de 2002, que bem pode servir como abertura novamente.


Hoje este blogue está oficialmente (e pela terceira vez) nascendo. Por isso, nada melhor que falar de morte.

Dizem que pra morrer basta estar vivo. Mas "estar vivo" e "morrer", apesar do significado aparentemente inquestionável, são coisas muito mais vagas do que parece à primeira vista. Biologicamente, é fácil falar de vida e morte. Existem sinais indiscutíveis para considerar alguma coisa viva e para saber quando ela deixou de estar. Assim como se ela jamais viveu em toda sua existência.

Mas existem outros sinais, menos técnicos - e, por isso, mais complicados e obscuros - que demonstram a existência ou não de vida. Qual a diferença entre uma samambaia e uma pessoa que permanece sentada e inerte num canto, sem tomar nenhuma decisão, a baba escorrendo pelo canto da boca, o limo crescendo entre os neurônios? Tecnicamente, ambos estão vivos - mas é como se não estivessem. Ambos ficam parados. Submissos. Passivos. Mortos. Para uma samambaia, é compreensível. Para uma pessoa, é inaceitável.

Não me refiro só aos revolucionários de poltrona, que bradam "isso é uma vergonha!" diante de qualquer mazela que seus indignados olhos vêem no Jornal Nacional e que é esquecida assim que começa a Novela das Oito. Revolução é difícil de fazer, está fora de moda. Me refiro, isso sim, àquelas estátuas de bronze enferrujadas, guardadas num canto escuro, úmido e esquecido, que permanecem em seu incômodo lugar embora tenham pernas para fugir para qualquer outro ponto do planeta. Às vezes, uma fuga nem é necessária. Olhar pra outro canto, virar a cabeça, já é suficiente. Mas as pessoas-samambaia, inertes mortas e fétidas, não têm força para isso. Ou talvez não queiram ter.

Pra gente assim, vida e morte não faz diferença, assim como pra um bloco de granito não importa estar inteiro ou destruído a marretadas. A boca permanece semi-aberta, a baba escorrendo lentamente, a vontade de fazer qualquer coisa permanece apenas vontade, quando vontade chega a ser. Vida e morte se confundem pras pessoas-samambaia. Pra morrer, nesses casos, não falta nada.